segunda-feira, 2 de agosto de 2004
CAPÍTULO 3
I
Nada, nem mesmo os berros histéricos do delegado Mancini, fariam com que ele abrisse a boca. Haviam se passado duas horas desde que entrara naquela sala de interrogatório, um cubículo fétido e sem ventilação, e não tinha desviado os olhos do chão um instante sequer, com medo de que o delegado interpretasse seu olhar como um desafio. Já havia resistido a todas as perguntas sem pronunciar uma única palavra, e encarar o homem furioso em sua frente poderia agravar sua situação.
Mancini bufa, ajeitando os cabelos grisalhos
e rebeldes com os dedos. Nesse momento, ergue os olhos e fita sua expressão. Um
misto de raiva e impaciência transparece claramente em seu rosto redondo e os olhos injetados de sangue faíscam como se estivessem em curto-circuito. Tem a impressão de que ele está louco para esmagar seu crânio contra a parede, o que é perfeitamente possível. Embora fosse assassinato, seria uma maneira eficiente de acabar com aquele interrogatório inútil.
"Vou perguntar pela última vez", o homem diz
enquanto se aproxima da mesa. Apóia-se nela com as mãos, curvando o corpo até seu nariz quase tocar o dele. "O que aconteceu naquela maldita casa?!"
Prende a respiração, procurando não inalar o
hálito adocicado, e continua em silêncio.
O delegado Mancini empertiga-se e suspira
fundo. Depois diz calmamente:
"Eu quero ajudá-lo, garoto. Quero mesmo." De
repente, eleva a voz. "Acontece que eu tenho três pessoas mortas e você é o
único sobrevivente e suspeito. Portanto, se você não colaborar comigo, darei um jeito para que apodreça no xadrez!"
Silêncio. As narinas de
Mancini se contraem e ele sai da sala com o rosto em chamas, deixando-o sozinho.
Um trovão ribomba ao longe e acaba caindo da
cadeira com o susto. Arrasta-se até o canto da sala e senta, abraçando as pernas
com força. Diante do ruído hipnótico da chuva que começa a cair, pega no sono.
"Alexandre, acorda! Já chegamos."
Alexandre abriu os olhos e esfregou-os com as mãos. Não havia mais ninguém no carro, exceto Joana, que o segurava pelo braço.
Registrado por nosferatu às 12:03:40.
Manifeste-se! [40]
terça-feira, 13 de julho de 2004
III
O Hotel Quitandinha há muito deixara de ser uma
das construções mais belas da cidade para tornar-se um lugar triste e sem vida. As trepadeiras haviam engolido boa parte do exterior do prédio enquanto do lado de dentro, infiltrações e teias de aranha decoravam os cômodos que agora abrigavam Guilherme e seus aliados.
Todos permaneceram no saguão, com exceção de Sebastian, que foi levado para o antigo cassino. A sala era abafada e o cheiro de mofo, insuportável; havia tanta poeira sobre os móveis que o caçador imaginou que sairia com os pulmões entupidos, caso ficasse ali por muito tempo. Guilherme fez um gesto para os outros os deixassem a sós.
"Você tem minha atenção", disse, sentando-se numa velha poltrona e levantando pequenas nuvens esbranquiçadas que dançaram no ar e logo se dissolveram. "Disse que pretendem sair da cidade e que precisam da minha ajuda."
Sebastian meneou a cabeça positivamente.
"Muito bem", continuou o vampiro com sua fleuma
habitual. Embora tentasse manter-se sério, Sebastian notou que ele achava aquela
situação completamente ridícula. "E o que exatamente fez com pensassem que eu os
ajudaria?"
"Isso não se trata de uma guerra entre mortais e
vampiros, Guilherme. A Camarilla sempre conviveu conosco em equilíbrio. Não serei hipócrita a ponto de dizer que não tenho nada contra sua raça, mas acredito que neste momento, temos um inimigo em comum, um inimigo poderoso que teve peito para nos enfrentar e nos subjugar."
Guilherme levantou-se e, com as mãos entrelaçadas nas costas, começou a caminhar em círculos. Não tirava os olhos do chão, estava pensativo. Nesse instante, Sebastian sentiu-se tolo. Alexandre fizera bem ao resolver que deveriam pedir ajuda, mas haviam sido um tanto ingênuos ao cogitar a possibilidade de tal ajuda ser concedida assim, sem mais nem menos. Poderiam estar mortos agora, arriscaram suas vidas por algo que parecia não ter valido a pena.
E então, algo lhe ocorreu.
"Sei aonde estão indo, pelos menos uma boa parte
deles. Partirão em busca de Saco de Ossos."
Subitamente, Guilherme estacou e virou a cabeça na direção de Sebastian.
"Como você sabe?"
"Não importa. O que importa é que eu sei."
Aquelas palavras soaram como mágica. A expressão do vampiro mudou, camuflando uma tremenda satisfação. Além de Sebastian Morientes, o destemido caçador de bruxas preso a um corpo de mulher, se tinha alguém no mundo que desejava por as mãos em Saco de Ossos mais do que qualquer coisa era Guilherme de Brito Constantino, príncipe da cidade de Petrópolis, Toreador poderoso e implacável.
"Muito bem."
Guilherme se dirigiu para Sebastian com o braço
direito estendido.
"Temos um acordo. Vocês terão minha ajuda."
Sebastian sorriu e apertou a mão do príncipe, sem acreditar no que estava fazendo.
Registrado por nosferatu às 10:45:47.
Manifeste-se! [109]
domingo, 27 de junho de 2004
II
Gustavo estava tenso, os dedos da mão
esquerda envolvendo o cabo da pistola dentro do coldre que pendia de seu ombro.
Gotas de suor porejavam em sua fronte, reluziam à luz da lua feito pequenos diamantes. O jovem sabia que Sebastian e o padre Macedo juntos realizavam verdadeiros milagres, porém temia que houvessem caído em outra cilada. A segunda em uma mesma noite.
"Esse silêncio não é nada bom", balbuciou Alexandre, deixando o companheiro ainda mais nervoso. A despeito de estar um pouco preocupado com o que pudesse estar acontecendo do lado de fora, não esboçava uma única reação.
Joana limitou-se a aquiescer. Sabia que Alexandre não a deixaria sair, não importa o que dissesse. A única coisa que estava em seu alcance naquele momento era torcer para que os dois não vacilassem; eram exímios lutadores, sem dúvida, mas não poderiam lutar contra o que seus olhos não conseguissem enxergar.
"Acham que eles estão bem?", indagou.
Antes que alguém respondesse, Gabriel se aproximou do veículo, o sobretudo dançando no ritmo do vento, a espada embainhada. Para alívio de todos, parecia bem tranqüilo. O padre abriu a porta do lado do condutor e curvou-se, enfiando a cabeça dentro do carro.
"Deixem suas armas aí. Nós vamos entrar."
Registrado por nosferatu às 01:27:14.
Manifeste-se! [127]
segunda-feira, 21 de junho de 2004
CAPÍTULO
2
I
CLAP! CLAP! CLAP!
Os aplausos romperam o silêncio, chegando aos ouvidos de Sebastian segundos depois da enorme quantidade de passos. Eram tantos sapatos tocando o asfalto que ele não pôde precisar quantos homens se aproximavam. Sabia, porém, que no mínimo vinte estavam prestes a cruzar a névoa e surgir em seu campo de visão. Por um instante, procurou imaginar uma pior maneira de morrer após terem lutado tanto pela sobrevivência, não apenas deles, mas de uma sociedade inteira. Não encontrou.
"O que vamos fazer? Não tem como fugir, transformarão nosso carro em sucata em questão de segundos", disse, a mente trabalhando tão rápido quanto os pistões de um motor.
"Oremos para que tenhamos uma morte rápida", retrucou Gabriel, sem esperanças.
Mas ninguém morreria; pelo menos não naquele momento.
Guilherme foi reconhecido primeiro,
pois o rosto de traços delicados, talhado à faca, definitivamente chamava atenção. Além disso, era o único de terno. O Cainita parou abruptamente e, com os braços, fez sinal para que todos permanecessem onde estavam.
"Ora, ora", debochou, os lábios rasgando-se em um sorriso medonho. "Sebastian Morientes. Não sei se devo aproveitar esta chance e liquidá-lo ou agradecê-lo por terem varrido a sujeira do meu Elísio."
Sebastian disfarçou o alívio que tomava seu coração. A última coisa de que precisava era que Guilherme descobrisse que, pela primeira vez desde que conseguira aquele corpo, teve medo de morrer. A morte em si não o assustava, afinal, ela chegaria na hora certa. Mas até lá, tinha um objetivo a cumprir e, caso não o cumprisse, jamais teria outra oportunidade.
Gabriel ficou calado, observando tudo.
"Dois escaparam e dois estão apenas paralisados."
"Paralisados... você sempre foi bom com estacas. Esses idiotas do Sabá já deveriam saber disso, mas pelo visto esses aí não eram muito espertos."
"Vamos cortar o papo-furado, Guilherme. Viemos até aqui porque precisamos da sua ajuda. Pretendemos sair da cidade o quanto antes."
O vampiro riu como se houvesse acabado de escutar a piada do ano. Em seguida, balançou a cabeça de um lado para o outro, fitando o chão.
"Isso é a maior besteira que eu já ouvi, mas como eu disse, vocês varreram a sujeira do meu Elísio. Teria sido muita perda de tempo incumbir meus homens de destruir meia dúzia desses idiotas. Por isso, irei dar atenção ao que tem a dizer. Depois quero que dêem meia volta e desapareçam."
"Não creio que você vá querer que desapareçamos depois da nossa conversa."
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Manifeste-se! [81]
segunda-feira, 14 de junho de 2004
VI
Obviamente, não seria uma luta justa. Seis vampiros, força sobre-humana, dois homens, um deles debilitado devido ao ferimento acima do abdômen, em meio a um nevoeiro em que olho nenhum poderia penetrar. Sebastian checou o interior da jaqueta: havia três estacas, nada mais.
"Certo, padre. A partir de agora serei seus olhos. Não pense em nada, apenas fique atento ao que eu disser."
Gabriel virou-se de costas para o companheiro a fim de não ser pego de surpresa e orou rapidamente em silêncio, agradecendo por Sebastian ter a audição aguçada. Se não fosse por isso, já estariam mortos antes mesmo de pararem o carro. Agora, Alexandre, Gustavo e Joana permaneceriam seguros enquanto eles continuassem de pé, pois as criaturas viriam para cima com tudo, atrás dos peixes grandes. Provavelmente, o vampiro que levasse a cabeça de um deles de volta ao covil seria idolatrado por toda a eternidade, conhecido como o Cainita que fora de encontro à Morte Final e retornara, triunfante. Era isso que importava. Os outros no interior do carro representavam apenas perda de tempo.
"Temos um vindo pela minha esquerda e
um bem na sua frente. Ataque quando... ah, merda! Vai!"
Sebastian puxou uma estaca e lançou-a
para o nada enquanto Gabriel desembainhava a espada e, com um golpe certeiro, cortava a cabeça do monstro que surgira diante dele. Em seguida, girou o braço no ar e desferiu mais um golpe na direção antes indicada pelo amigo. Um corpo tombou para frente; não havia mais nada acima do pescoço.
Com movimentos rápidos, Sebastian
arrancou a estaca do corpo caído, tirou mais uma de dentro da jaqueta e arremessou as duas em direções opostas. Conseguiu ouvir o som de carne sendo perfurada, seguido de silêncio.
"Faltam dois. Só tenho mais uma estaca, padre. Agora é com o sen... essa não."
"O está havendo?", perguntou Gabriel, os olhos girando nas órbitas, tentando enxergar algo, distinguir pelo menos uma
silhueta entre tanta escuridão.
"Estamos mortos."
Registrado por nosferatu às 02:08:40.
Manifeste-se! [58]
domingo, 30 de maio de 2004
V
O padre Macedo mantivera-se relutante no início, porém assim que Alexandre explicou o que tinha em mente, finalmente cedeu. Concordara em ajudá-los não apenas porque nutria uma enorme admiração pelo garoto, mas principalmente porque confiava em Sebastian, e Sebastian acreditava que aquilo poderia funcionar. Caso não funcionasse, estariam assinando sua sentença de morte.
Joana havia se sentido satisfeita por ver o padre mudar de idéia, no entanto, agora que estava dentro do carro, suas pernas tremiam cada vez mais à medida que os prédios iam desaparecendo lá atrás, dando lugar a ruínas que irradiavam medo e tristeza. Na frente, Sebastian e padre Macedo conversavam, e ela procurou prestar atenção no que diziam a fim de se distrair. Aquele lugar trazia à tona lembranças que vinha tentando esquecer, lembranças que permaneciam apagadas por um tempo e voltavam para assombrá-la assim que fechava os olhos. Se tivesse escolha, não dormiria nunca mais.
Alexandre começou a orar em silêncio quando percebeu que Joana e Gustavo não estavam muito a fim de conversar. Não queria atrapalhar Sebastian e o padre, então baixou a cabeça e deixou uma parte de seus pensamentos voarem sem rumo enquanto a outra parte pedia a Deus que nada desse errado. Agradeceu por ter ao seu lado amigos tão dedicados e corajosos, pessoas em cujas mãos ele depositava sua vida. Tinha fé até mesmo em Gustavo, que desejava estar bem longe ali naquele momento, mas certamente encararia o perigo de frente quando a hora chegasse. Subitamente, Alexandre percebeu que estavam diminuindo a velocidade. O carro parou; uma névoa densa e pálida caiu sobre a rua, tapando tudo em volta.
"Mas que merda...", Gustavo começou a
falar. Sebastian ergueu a mão direita, mandando-o calar a boca.
"Temos companhia, pessoal. Seis deles."
"Como você sabe, Sebastian? Não estou
ouvindo nada.", sussurrou Joana. "E vendo muito menos graças a essa porcaria de
neblina."
"Confie em mim, Joana. Você não pode ouvi-los, mas eu posso."
"Acho que está na hora da festa." Gustavo enfiou a mão dentro do casaco e sacou sua pistola. "Estava mesmo a fim de estourar alguns miolos podres."
"Então vai ter que esperar mais um pouco para saciar sua vontade, garoto... você não vai conseguir acertar nem vento no meio desse fumacê todo. Poupe sua munição. O padre e eu cuidamos disso."
Sebastian virou-se para Gabriel e fez um aceno com a cabeça. Ambos saltaram do carro e desapareceram logo a frente.
Registrado por nosferatu às 01:39:07.
Manifeste-se! [49]
terça-feira, 18 de maio de 2004
IV
Gabriel ouvira tudo atentamente e chegou à conclusão de que Joana estava perdendo o juízo. Como fuzileiro naval, havia enfrentado a morte de perto, sentira a foice passar rente ao seu pescoço inúmeras vezes (motivo que o levara a se tornar padre e colocar Deus em primeiro plano), porém o que ela tinha em mente era impossível; suicídio na certa. Se possuíssem um exército à altura, talvez, sim, talvez, houvesse uma chance de alcançarem a vitória ou, pelo menos, queimarem cadáveres o bastante para livrar a saída. Se...
"Joana, entenda", disse, ajoelhando-se diante dela e segurando suas duas mãos. "Admiro a sua coragem, mas sua teimosia só irá levar dezenas de soldados à morte. A cidade foi devastada, temos poucos homens. Seremos massacrados."
A jovem fitou-o por alguns segundos. Por um momento, Gabriel chegou a acreditar que ela finalmente daria o braço a torcer. No entanto, devido àquele brilho intenso em seus olhos, sabia que Joana iria até o fim mesmo estando errada.
"Temos mulheres também, padre. Excelentes guerreiras que vão fazer muita diferença."
"Você entendeu o que eu quis dizer, não se faça de ignorante!" O grito ecoou pelo interior da catedral. Joana teve um sobressalto, surpresa. Gabriel fechou os olhos e suspirou fundo, alisando a barbicha. Fazia anos que não levantava a voz para alguém, principalmente dentro de um lugar sagrado, mas sua paciência estava esgotando. Lentamente, levantou-se. Começou a caminhar de um lado para o outro, organizando seus pensamentos, buscando um argumento que pudesse convencer, de vez, Joana a mudar de idéia. "Raciocine junto comigo", pediu, finalmente. "Seus guerreiros e guerreiras chegam a um total de quanto? Trinta?" A moça meneou a cabeça afirmativamente e ele prosseguiu. "Vamos supor que Alexandre e seus homens aceitem fazer parte dessa investida... quantos soldados a mais você teria? Depois do último ataque, o exército dele foi reduzido a menos de vinte, sendo que muitos ainda estão feridos."
"Podemos recrutar mais gente. Estamos no meio de uma guerra sem trégua, padre. Pegaremos qualquer um, até mesmo crianças, e transformaremos em combatentes." Joana curvou-se, apoiando os cotovelos nas coxas. Sua face adquiriu uma expressão sombria. "Vasculharemos cada casa nessa cidade que ainda está de pé e traremos a Resistência de volta à vida."
Deus, ela definitivamente está fora de si, pensou Gabriel. Todo aquele fanatismo não estava permitindo que ela pensasse direito e ele temia a conseqüência de seus atos.
"Você está louca. Jogar nossas crianças, as únicas que restaram, no meio desse inferno?"
"Não temos escolha, padre. De qualquer maneira, elas já estão afundadas nesse inferno até o pescoço."
"Você enlouqueceu! A causa não é tudo
o que importa. Temos que levar muitas coisas em consideração. Muitos ainda possuem famílias e com certeza não irão arriscar o pescoço por você ou qualquer um que esteja tão cego a ponto de não enxergar o que se passa em volta."
Joana ergueu-se de um salto para responder, mas um guincho de pneus do lado de fora a manteve calada. Ouviram três portas baterem, indicando que havia mais de uma pessoa. Voltaram-se para a entrada, prestando atenção nos passos cada vez mais próximos. Subitamente, os passos cessaram, a enorme porta se abriu com um rangido ensurdecedor e Alexandre surgiu sob a luz da lua, seguido de perto por Sebastian e Gustavo.
Gabriel foi ao encontro deles.
"Fico feliz em vê-los, amigos! Talvez vocês possam me ajudar com essa cabeça-dura aqui!"
"Talvez vocês possam me ajudar com esse cabeça-dura aqui!", corrigiu Joana ao se aproximar. "Digam a ele que nossa única chance de sobreviver é saindo da cidade para buscar ajuda."
Os três se entreolharam enquanto Gabriel sacudia a cabeça, inconformado.
"Joana tem razão, padre", confessou Alexandre um tanto sem jeito. "Por isso viemos até aqui. Precisamos de sua ajuda."
"Meu Deus! Estão todos loucos!"
Registrado por nosferatu às 02:33:54.
Manifeste-se! [37]
quarta-feira, 12 de maio de 2004
III
"Vamos passar na catedral antes. O padre Macedo seria de grande ajuda."
Sebastian concordou com um gesto de cabeça. A fé de padre Macedo sem dúvida os protegeria, mas não se tratava apenas disso, uma vez que o homem era também um grande guerreiro. Havia destruído centenas de vampiros com sua espada e seu nome provocava desconforto até mesmo nas criaturas mais sombrias. Depois de Sebastian, padre Macedo era o mortal mais temido pelos demônios da noite. Juntos, tornavam-se imbatíveis.
Alexandre ligou o rádio. Fazia isso todos os dias com a esperança de encontrar algum sinal, porém não ouvia nada além do ruído de estática. Percorreram o resto do caminho em silêncio.
Registrado por nosferatu às 00:49:45.
Manifeste-se! [22]
quarta-feira, 5 de maio de 2004
II
Se havia algo que, até então, Alexandre não tinha conseguido entender era o que aquelas criaturas queriam com Ana. Tentara de todas as maneiras descobrir algum motivo especial que a tornasse um alvo, mas a situação simplesmente não fazia o menor sentido. Se alguns meses atrás lhe dissessem que o mundo seria dominado por vampiros e seus carniçais, isso também não faria o menor sentido, claro, porém não passava pela sua cabeça por que eles a mantinham viva.
"Vamos precisar de ajuda. Devemos juntar todos os membros da Resistência que conseguirmos encontrar antes que seja tarde demais", disse Sebastian, despertando Alexandre de seu devaneio.
"A maior parte da população de Petrópolis já virou história, Sebastian." Um jovem de pele muito branca, cabelos loiros e olhos azuis surgiu da escuridão, girando sua pistola no ar e guardando-a no coldre que pendia de seu ombro direito. "Vamos ter que sair da cidade e você sabe que não temos essa opção."
Um borburinho tomou conta da sala. O jovem estava certo. Não poderiam arriscar os poucos homens que possuíam em uma tentativa praticamente suicida de deixar a cidade. Todas as saídas eram bem guardadas, durante a noite pelos Cainitas, durante o dia por seus lacaios. Mesmo que arriscassem uma investida contra os recém-despertos, que eram infinitamente mais fracos que seus mestres, sob a luz do sol, seria uma luta desigual e dezenas de vidas se perderiam em vão.
"Nós temos essa opção, Gustavo. Podemos passar pelas barricadas se soubermos a quem recorrer."
De repente, tudo ficou quieto. Foi Alexandre quem rompeu o silêncio ao se levantar da velha poltrona onde estivera sentado o tempo todo e dirigir-se a Sebastian, espantado.
"Sebastian, você não está pensando... neles, está?"
"Sim, estou."
"Tá maluco, cara?!", berrou Gustavo. "Acho que esse machucado aí afetou os seus miolos", disse, batendo nas têmporas com os dedos indicadores. "Ou talvez você não saiba mais raciocinar como um guerreiro, já que faz tempo que precisa sentar pra mijar."
Alguns não conseguiram conter uma risadinha.
Sebastian sorriu e esfregou as mãos uma na outra. Antes que Gustavo pudesse piscar, estava de bruços no chão, Sebastian sobre ele, pressionando seu rosto contra as tábuas de madeira.
"Escuta aqui, seu fedelho de merda! Enquanto você ainda tocava punheta folheando uma maldita Playboy, eu já caçava esses demônios usando apenas uma estaca de madeira! Portanto, acho melhor você me respeitar ou sua cabeça será a próxima a rolar nas mãos daqueles desgraçados! Fui claro?"
Gustavo tentou dizer algo, mas de sua boca escaparam apenas uns grunhidos.
"Chega! Sebastian, pare com isso!" O homem-mulher obedeceu. "Se vamos pedir ajuda a eles, tem de ser imediatamente. Preciso de voluntários. Alguém se prontifica?"
Nenhum dos quinze homens que estavam
presentes se manifestou.
"Imaginei", murmurou Sebastian, sacudindo a cabeça negativamente. "Pelo visto sobrou pra mim."
"Vou com você."
"Muito bem, Alexandre. E a criança aí vai conosco."
Gustavo, que sacudia a camisa a fim de se livrar da poeira, arregalou os olhos e suspirou ao ver que não teria escolha.
Registrado por nosferatu às 02:09:05.
Manifeste-se! [18]
domingo, 2 de maio de 2004
CAPÍTULO
1
I
"Era uma maldita
emboscada!"
Todos os rostos se voltaram para a mulher, que permanecia curvada sob a soleira da porta, ofegante. Usava a mão direita para pressionar um ferimento logo abaixo dos seios e, quando se deram conta da enorme quantidade de sangue que escorria por entre seus dedos, já era tarde demais. Seus olhos giraram nas órbitas e ela tombou para frente, levantando pequenas nuvens de uma poeira esbranquiçada que cobria o piso do apartamento.
Estava escuro. Sebastian fechou os olhos novamente e apertou-os com força até sentir as têmporas latejarem. Ao abri-los, conseguiu enxergar a silhueta de Alexandre ao lado da cama.
"Onde está o Bruno?"
"Eles o pegaram. Fizeram-no ficar de joelhos e depois cortaram sua cabeça."
Alexandre entrelaçou os dedos e caminhou até a janela. Sebastian pôde vê-lo claramente quando a luz da lua incidiu sobre seu rosto. Sentiu uma pontada no coração ao notar que ele chorava. Imaginou que não suportaria aquele inferno se estivesse em seu lugar, dez anos mais novo, completamente sem rumo em um mundo onde a única coisa que o motivava era a esperança. Nada além disso poderia fazê-lo seguir adiante, não naquele momento.
Ainda sem forças para se levantar, Sebastian fitou, calado, o rapaz enquanto ele orava. Sabia qual pergunta viria a seguir. Assim que Alexandre terminou o sinal da cruz, ela chegou aos seus ouvidos numa voz engrolada e fraca, quase um sussurro.
"Ana?"
"Está bem, mas não foi dessa vez que consegui trazê-la de volta. Sinto muito."
"Não sinta. Tenho certeza de que fez o possível, você é nosso melhor..." Parou de repente.
Sebastian deixou escapar uma risadinha, seguida de um gemido de dor.
"Não precisa ficar sem graça, garoto. Eu ainda sou um homem, acontece que meu corpo está bem longe daqui."
O rapaz contorceu os lábios em um breve sorriso. Poderia conviver com Sebastian pelo resto de sua vida, mas nunca se acostumaria.
"Creio que agora será impossível encontrá-la", disse após alguns segundos de silêncio.
"Não, não será."
"Como não? Encontramos o refúgio deles! Irão se se esconder num lugar onde nem mesmo Deus será capaz de pegá-los. Lembre-se de que este mundo lhes pertence agora."
"Vamos pegar nosso mundo de volta, garoto. E além do mais, eu sei aonde eles vão."
"Sabe? Aonde?"
"Tire-me dessa porcaria de cama e eu lhe direi."
Registrado por nosferatu às 02:38:12.
Manifeste-se! [12]
sábado, 1 de maio de 2004
PRÓLOGO
BARTOLOMEU: MEMÓRIAS E LAPSOS
(I)
Tudo começou com um assassinato. Não desses assassinatos comuns que costumávamos ver nos telejornais; nada de assalto ou de bala perdida ou da filha que havia surtado e esfaqueado os pais. Quando encontraram o corpo do menino naquele estado, o perito sequer pestanejou: deveria estar morto há meses. O único problema era que Caio Resende da Costa tinha desaparecido há pouco mais de três dias.
Os médicos permaneceram com o seu ceticismo, defendendo a hipótese de que um novo tipo de doença poderia ter causado o "acelerado processo de decomposição", como um deles falara em uma coletiva. Não estavam dispostos a discutir qualquer outra possibilidade que não fosse ligada à ciência e, quando um fanático religioso invadiu o hospital, o rosto contorcido numa expressão repulsiva, berrando que aquilo havia sido obra do demônio, caretas e piadas tornaram-se rotina nos corredores durante a semana seguinte. Até que, a 27 de junho de 2003, o mundo mergulhou no que chamamos de "Era do Caos".
Registrado por nosferatu às 21:28:24.
Manifeste-se! [14]
quarta-feira, 28 de abril de 2004
NOTA DO
AUTOR
Em primeiro lugar, gostaria de dizer que não sou adorador do demônio ou qualquer coisa parecida. Tudo o que será publicado nesse weblog não passa de ficção, uma estória criada por mim apenas para entreter. Não acredito em lobisomens, vampiros e muito menos em cadáveres que levantam de seus túmulos e obedecem às ordens daqueles que os despertaram, portanto, não me responsabilizo pela forma como irá interpretar o texto.
Acredito que possuo outro ponto a ser esclarecido. Se você é leitor de André Vianco, caso tenha lido o seu último livro, "Bento", notará algumas semelhanças entre o mundo criado por ele e o meu. Gostaria de dizer que a idéia para escrever "Trevas: Sob um manto de escuridão" surgiu há alguns anos, antes mesmo da publicação de "Os Sete", e de maneira alguma eu busquei elementos no livro de Vianco para desenvolver o mundo com o qual você está prestes a se deparar. Posso lhe garantir que qualquer semelhança é mera coincidência.
Para terminar, gostaria de agradecer à equipe do WEBLOGGER, que me proporcionou condições de publicar minha estória, e a você, caro(a) leitor(a), que está me
dando esta chance. Espero que goste. Boa leitura!
Daniel
Coelho
Registrado por nosferatu às 01:21:11.
Manifeste-se! [36]